Tres filmes de bruxaria — A Bruxa (2015), Witchfinder General (1968) e A Dark Song (2016) — foram construidos em cima de grimorios, panfletos, diarios e registros de tribunal do seculo 17, em vez de inventar feiticos do zero. O resultado e um tipo raro de horror: um que incomoda justamente porque a parte historica aconteceu de verdade. A lista foi destacada pelo ComicBook.com como exemplo de cinema que troca o clichê pelo arquivo.
Filmes de bruxaria usam historia real como roteiro — e isso muda tudo
A bruxaria e um dos temas mais antigos do cinema de horror, mas quase sempre a custo da historia. Coven inventada, caldeirao estilizado e feiticos decorativos dominam a maior parte do genero. O que esses tres longas fazem e o movimento oposto: tratam figuras, documentos e tradicoes reais como alicerce do roteiro.
A Bruxa, de Robert Eggers, passou quase quatro anos em pesquisa antes de virar filme: trabalho com historiadores, visitas a museus e idas repetidas a recriacoes de vilas puritanas para reconstruir a Nova Inglaterra dos anos 1630 ate nas paredes de madeira. Witchfinder General, de Michael Reeves, recria Matthew Hopkins, o caçador de bruxas que aterrorizou East Anglia durante a Guerra Civil Inglesa. A Dark Song, de Liam Gavin, segue literalmente o passo a passo de um ritual documentado num grimorio do seculo 19, traduzido do manuscrito original atribuido a Abraao de Worms.
O ponto em comum e simples: quando o roteiro sai de fonte primaria, a atmosfera muda. A bruxaria deixa de ser decoracao e vira mecanismo de pesadelo — porque o leitor/espectador ja desconfia que aquilo, em alguma versao, ja foi levado a serio por alguem.
Contexto: por que o detalhe historico pesa mais que o sobrenatural
A panico das bruxas nao foi invencao de cinema. No contexto europeu e nas colonias inglesas, a perseguicao a supostas bruxas e bruxos e um fenomeno documentado entre os seculos 15 e 18, com epicentros conhecidos na Alemanha, na Escócia, na Inglaterra e na Nova Inglaterra colonial. Os tribunais, os metodos de tortura e os panfletos que espalhavam denuncias existem em arquivo publico ate hoje.
E justamente nesse ponto que os tres filmes se diferenciam. Eles nao inventam a bruxaria — eles a citam. A Bruxa foi escrita em Ingles Moderno inicial e parte dos dialogos foram colhidos diretamente de diarios do periodo, como os de Samuel Sewall e John Winthrop, ambos ligados aos julgamentos de bruxas de Salem. O cartao final do filme assume: a historia foi inspirada em folclore e em relatos escritos, incluindo diarios, registros e panfletos da epoca.
Witchfinder General parte do romance de 1966 de Ronald Bassett, que mistura historia documentada com personagens inventados — por exemplo, o romance ficcional entre Sara e o soldado parlamentar Richard Marshall. Mas o nucleo do filme e factual: Matthew Hopkins e John Stearne existiram, o chamado swimming test (acusado amarrado e jogado na agua; flutuar era prova de culpa) foi um metodo real, e o caso do clérigo John Lowes, executado por ordem de Hopkins, ajudou a virar a opiniao publica contra os caçadores.
A Dark Song faz algo diferente: em vez de tribunal, vai para o grimorio. O filme reproduz ponto a ponto a Operação Abramelin, ritual tirado de O Livro de Abramelin, atribuido a Abraao de Worms, traduzido para o ingles em 1897 por S.L. MacGregor Mathers. jejum, abstinencia sexual, isolamento dentro de um circulo de sal — tudo esta no roteiro porque esta no manual. Aleister Crowley e outros ocultistas do seculo 20 estao documentados como tendo passado pela mesma tentativa de alcançar o que os praticantes chamam de Knowledge and Conversation of the Holy Guardian Angel.
Reação dos fas e do mercado: o tipo de elogio que esses filmes recebem
A recepção dos tres na critica e no publico mostra um padrao claro: o que se elogia nao e o efeito especial, e sim o trabalho de pesquisa.
- A Bruxa (2015, A24): virou caso de cult e funcionou como vitrine para Anya Taylor-Joy, que logo despontou para Hollywood. Os elogios mais frequentes vao para a linguagem, a recriacao da vida cotidiana puritana e o clima de paranoia domestica — nao para os efeitos de bruxaria, que sao contidos.
- Witchfinder General (1968, Tigon Pictures): e citado como ponto de virada no horror britanico e como um dos grandes papeis de Vincent Price. O filme e lembrado por transformar uma pagina de historia inglesa em critica politica: os caçadores de bruxas como instrumento de poder.
- A Dark Song (2016, IFC Midnight): e o menos badalado dos tres, e justamente o que mais se apoia na procedência. Quem defende o longa costuma apontar o ritmo lento e a exaustao dos personagens como trunfos — o horror vem da rotina ritual, nao do jumpscare.
Em resumo, os tres dividem uma aposta incomum no cinema de genero: abrir mao do sobrenatural barato em favor do detalhe historico. Isso limita o publico inicial, mas constroi uma base de admiradores que defende o filme com argumento, nao com gritaria.
Os 3 filmes lado a lado: o que cada um acerta
| Filme | Periodo recriado | Fonte principal | O que e historicamente correto |
|---|---|---|---|
| A Bruxa (2015) | Nova Inglaterra, 1630 | Diarios de Sewall e Winthrop, panfletos e registros de julgamentos | Lingua, rotina puritana, dinamica de acusacao dentro da propria familia |
| Witchfinder General (1968) | East Anglia, 1644-1647 | Registros historicos de Matthew Hopkins e John Stearne; romance de Ronald Bassett (1966) | Personagem central, metodo do swimming test, caso do clérigo John Lowes |
| A Dark Song (2016) | Pais de Gales rural, contemporaneo (mas ritual do seculo 19) | O Livro de Abramelin (traduzido por S.L. MacGregor Mathers, 1897) | Procedimentos da Operação Abramelin: jejum, abstinencia, isolamento dentro do circulo de sal |
A primeira vista, os tres parecem pouco: um terror folk, um filme classico com Vincent Price, um longa irlandes lento. Mas e justamente por isso que funcionam. Eles nao competem com o barulho do horror blockbuster — usam o silencio da fonte primaria.
Onde isso pode dar: a tendencia do horror historiográfico
O trio nao e caso isolado. Ele se encaixa num movimento maior do horror contemporaneo, que tem puxado a pesquisa para o centro do processo criativo. Robert Eggers, por exemplo, seguiu pelo mesmo caminho em O Farol (2019) e O Homem do Norte (2022). Late Night with the Devil, Skinamarink e outros titulos recentes apostam em reconstituicao de epoca e linguagem de periodo em vez de CGI pesado.
Para o fã brasileiro, isso significa tres movimentos uteis:
- Maratonar os tres em ordem cronologica de lancamento ajuda a perceber a evolucao: Witchfinder General (1968) usa o realismo para fazer critica politica, A Dark Song (2016) usa para construir atmosfera, e A Bruxa (2015) usa para virar o terror contra a propria familia.
- Os tres dialogam com Salem e com a histeria contemporanea, mesmo sem tocar no tema diretamente. Em tempos de pitchforks digitais, a pergunta "quem decide quem e a bruxa?" fica mais atual do que nunca.
- Vale procurar as fontes primarias: O Livro de Abramelin tem traducoes em portugues, e os registros dos julgamentos de Salem estao digitalizados e em dominio publico.
O horror mais eficiente nao precisa inventar o diabo — basta mostra-lo lendo a historia que ja escreveram.
Os tres filmes nao vao te assustar com monstros. Vao te assustar com a ideia de que, em algum momento, alguem levou aquilo a serio. E, no fim das contas, e essa a diferenca entre bruxaria de cinema e bruxaria de arquivo: uma diverte; a outra perturba.


