O limite entre a genialidade e a loucura nos videogames
Se pararmos para analisar friamente, a premissa de quase todo videogame é, no mínimo, curiosa. Um encanador italiano que come cogumelos para crescer e resgatar uma princesa de uma tartaruga gigante em Super Mario Bros. (franquia da nintendo) ou um ouriço azul que corre na velocidade do som em sonic the hedgehog (da SEGA) não são exatamente exemplos de realismo. No entanto, aceitamos essas regras porque elas fazem parte da diversão e da construção de mundos fantásticos.
Contudo, existe uma categoria de títulos que decide chutar o balde do bom senso e abraçar o surrealismo total. São os chamados jogos absurdos, obras que muitas vezes nascem de piadas internas, experimentos artísticos ou simplesmente do desejo de ver até onde a paciência e a curiosidade do jogador podem ir. O mais impressionante? Muitos desses jogos não são apenas bizarros, eles são genuinamente bons e bem executados dentro de suas propostas malucas.
Abaixo, selecionamos cinco dos títulos mais absurdos já lançados, que variam de simuladores existenciais a romances interespécies.
1) Who’s Your Daddy: O simulador de paternidade caótica
Lançado originalmente em 2016 pela Evil Tortilla Games (estúdio independente), Who’s Your Daddy é um jogo multiplayer assimétrico que coloca dois jogadores em papéis diametralmente opostos dentro de uma casa comum. Um jogador assume o papel do pai, enquanto o outro controla um bebê engatinhante.
O objetivo do pai é proteger a criança a qualquer custo, tapando tomadas, trancando armários com produtos de limpeza e garantindo que o pequeno não se meta em enrascadas. Já o objetivo do jogador que controla o bebê é exatamente o oposto: encontrar a maneira mais rápida e trágica de dar fim à própria vida virtual. É uma premissa de humor negro pesadíssimo, mas que gera situações hilárias e desesperadoras no modo cooperativo (ou competitivo, dependendo do ponto de vista). Recentemente, o jogo recebeu uma versão remasterizada e novos mapas, como a Baby Daddy Academy, expandindo o caos doméstico.
2) Mountain: Você é uma montanha e nada mais
O que define um videogame? Para o artista David O’Reilly, criador de Mountain, a interatividade pode ser mínima e ainda assim proporcionar uma experiência válida. Em Mountain, você não controla um herói, um carro ou uma civilização. Você é, literalmente, uma montanha flutuando no espaço.
O gameplay resume-se a observar a montanha girar, ver as estações mudarem e acompanhar objetos aleatórios — como guitarras, cadeiras ou peças de pizza — caindo do céu e ficando presos na sua encosta. Não há missões, não há chefões e não há como "vencer". Apesar da falta de elementos tradicionais de jogos, o título se tornou um sucesso cult no Steam (plataforma de jogos para PC), sendo elogiado por sua natureza relaxante e existencialista. Por apenas R$ 2,29 (preço aproximado, sujeito a variações), você pode simplesmente existir como uma formação rochosa cósmica.
3) LSD: Dream Emulator: Uma viagem surreal sem volta
Muito antes dos simuladores de caminhada modernos, a Asmik Ace Entertainment lançou para o primeiro playstation (console da Sony) o bizarro LSD: Dream Emulator. O título já entrega a vibe: o jogo é baseado em um diário de sonhos mantido por uma funcionária do estúdio por mais de uma década.
Neste game, não existem objetivos claros. Você explora ambientes psicodélicos e, ao tocar em qualquer objeto ou parede, é instantaneamente teletransportado para outra área ainda mais estranha. As texturas mudam, personagens bizarros aparecem sem explicação e a lógica espacial é inexistente. É uma peça de arte interativa que tenta emular a sensação desconexa de um sonho (ou pesadelo). Por ser um item de colecionador raro e extremamente estranho, ele se tornou uma lenda entre os entusiastas de jogos retrô e de terror psicológico.
4) Hatoful Boyfriend: Onde o amor não tem penas
Se você acha que simuladores de namoro (visual novels) já são um nicho peculiar, Hatoful Boyfriend: A School of Hope and White Wings vai explodir sua mente. Desenvolvido pela PigeoNation Inc., o jogo coloca você no papel da única estudante humana na St. PigeoNation’s Institute, uma escola de prestígio para aves talentosas.
Sim, o seu objetivo é frequentar aulas e encontrar o amor verdadeiro entre pombos, rolinhas e outras espécies de pássaros. Cada ave tem uma personalidade distinta — o atleta, o intelectual, o misterioso — e o jogo leva sua narrativa surpreendentemente a sério, com reviravoltas dramáticas e múltiplos finais. O que começa como uma paródia absurda de simuladores de romance acaba se tornando uma experiência narrativa profunda e, por vezes, bizarramente emocionante. Ele está disponível em diversas plataformas, incluindo PC e consoles.
5) Goat Simulator: O caos em forma de caprino
Talvez o exemplo mais famoso de como o absurdo pode gerar milhões de dólares, Goat Simulator, da Coffee Stain Studios, nasceu como uma piada interna durante uma maratona de desenvolvimento (game jam). O objetivo é simples: você controla uma cabra em um mundo aberto e deve causar o máximo de destruição possível.
O charme do jogo reside em seus bugs propositais e na física completamente quebrada. A língua da cabra pode grudar em objetos, ela pode voar com jetpacks ou até mesmo realizar rituais satânicos para ganhar poderes. O sucesso foi tão avassalador que gerou expansões temáticas (como MMO e apocalipse zumbi) e uma sequência direta chamada Goat Simulator 3 — os desenvolvedores pularam o número 2 apenas para manter a piada do absurdo viva.
Por que jogamos coisas tão estranhas?
- Fuga do óbvio: Jogos AAA muitas vezes seguem fórmulas repetitivas; o absurdo oferece algo genuinamente novo.
- Potencial viral: Esses títulos são perfeitos para criadores de conteúdo e streamers, já que a reação ao bizarro gera engajamento.
- Experimentação artística: Desenvolvedores independentes usam o absurdo para testar limites de narrativa e mecânica sem a pressão de grandes estúdios.
- Humor e leveza: Às vezes, tudo o que o jogador quer é desligar o cérebro e ser uma cabra imortal por algumas horas.
"O videogame é a única mídia onde você pode ser uma montanha por dez horas e chamar isso de entretenimento — e o pior é que realmente é."
No fim das contas, a indústria de games é rica justamente por permitir que ideias que jamais seriam aprovadas em outras mídias ganhem vida e encontrem seu público. Seja pelo choque, pela risada ou pela reflexão, os jogos absurdos garantem que o mundo nerd nunca seja entediante.
O que esperar dessa tendência
- Mais simuladores de nicho: O sucesso de Goat Simulator abriu portas para simuladores de quase qualquer objeto ou animal imaginável.
- Foco no humor surrealista: O público jovem, acostumado com memes rápidos, tende a consumir jogos que abraçam o nonsense.
- Integração com Realidade Virtual: O bizarro se torna ainda mais imersivo (e assustador) em VR, o que deve ser o próximo passo para títulos como LSD: Dream Emulator.
- Valorização do mercado indie: Esses jogos continuam sendo a principal vitrine para pequenos estúdios que querem se destacar no mar de lançamentos diários.


