Sho Miyake: A Poética do Invisível e a Arte de Observar o Mundo
No vasto oceano do cinema contemporâneo, onde o ruído visual e a edição frenética muitas vezes tentam esconder a falta de substância, o diretor japonês Sho Miyake surge como uma lufada de ar fresco — ou, talvez, como a poeira iluminada pelo sol que ele tanto gosta de capturar em suas lentes. Com a chegada de suas obras mais recentes, Small 🛒, Slow But Steady e Two Seasons 🛒, Two Strangers 🛒, ao mercado norte-americano, o mundo finalmente começa a prestar atenção a um dos contadores de histórias mais introspectivos e fascinantes do Japão atual.
Aqui na Culpa do Lag, sempre defendemos que a tecnologia e a arte não são opostas, mas sim ferramentas diferentes para traduzir a experiência humana. E Miyake é o mestre dessa tradução. Em uma conversa franca, ele nos convida a olhar para o que geralmente ignoramos: o desconforto, a solidão e, acima de tudo, o motivo pelo qual ainda insistimos em criar narrativas em um mundo cada vez mais acelerado.
Sumário
Pontos-chave
- Sho Miyake explora temas existenciais através de retratos naturalistas e personagens que lutam com o isolamento.
- O diretor defende que mudanças sociais e artísticas ocorrem através de esforços pequenos, lentos e constantes.
- A escolha entre filmar em película ou digital em Two Seasons, Two Strangers foi uma decisão estética deliberada para emular a estática do mangá.
- Miyake mantém uma postura de distanciamento crítico em relação à inteligência artificial, focando na essência humana da narrativa.
O desconforto honesto como bússola
Miyake não busca heróis infalíveis. Pelo contrário, ele se sente atraído por personagens desajeitados, pessoas que carregam uma espécie de malaise — um mal-estar que os distancia gradualmente da sociedade. Em Small, Slow But Steady, acompanhamos Keiko, uma boxeadora surda que, apesar de estar no auge de sua carreira, vive um conflito interno palpável. O sucesso não é a cura para sua solidão; é, muitas vezes, o catalisador de sua inquietação.
Para Miyake, essa “honestidade desajeitada” é aspiracional. Em um mundo onde todos tentam vender uma versão polida e artificial de si mesmos, ele admite que, como cineasta, às vezes se sente “slick” demais — capaz de mentir para si mesmo. Seus filmes são, portanto, um exercício de busca pela verdade crua. Quando ele filma a hesitação de um personagem, ele não está apenas compondo uma cena; ele está nos perguntando: “Por que você está fingindo que está tudo bem?”
A estética do invisível: a poeira e o tempo
Existe um momento em Small, Slow But Steady que resume perfeitamente a filosofia de Miyake. Em vez de focar apenas no drama da luta ou na tensão do ringue, a câmera se detém na poeira flutuando no ar de uma academia de boxe, iluminada pela luz da manhã. É um plano que ele descreve como “indulgente”, mas que carrega uma carga emocional imensa.
Miyake acredita que o cinema deve ser o guardião do que é ordinário. “Pequeno, lento e constante” não é apenas o título de um filme; é um manifesto. Ele entende que grandes mudanças — na sociedade ou em um filme — não acontecem da noite para o dia. Elas são o resultado de cortes precisos, de cenas bem pensadas e de uma atenção quase obsessiva aos detalhes que a maioria de nós ignora no piloto automático do cotidiano.
Cinema dentro do cinema: de Buster Keaton a Tsuge
Com seu mais recente trabalho, Two Seasons, Two Strangers, Miyake elevou a aposta estrutural. O filme brinca com a metalinguagem, utilizando o trabalho do renomado cartunista Yoshiharu Tsuge como espinha dorsal. A história de uma roteirista escrevendo um roteiro cria um labirinto de conexões humanas e isolamento.
Embora críticos apontem semelhanças com o minimalismo de Hong Sang-soo ou a precisão de Ryusuke Hamaguchi, Miyake aponta para uma fonte muito mais clássica: Buster Keaton. Em Sherlock Jr., Keaton explorou a ideia de entrar no mundo do filme, criando o conceito fundamental de “filme dentro de um filme”. Para Miyake, o cinema é essa ponte constante entre a nossa vida e a vida que projetamos na tela. É uma exploração oblíqua, mas profunda, sobre a necessidade humana de contar histórias.
O dilema da tecnologia: por que o digital?
Uma das perguntas mais interessantes para os entusiastas de tecnologia é a mudança técnica do diretor. Após filmar sucessivamente em película, Miyake optou pelo digital em seu novo longa. A razão não é apenas o orçamento ou a praticidade de filmar no gelo e na água — onde a película seria um risco técnico —, mas uma decisão puramente artística.
Ao adaptar o mangá, ele queria capturar a essência da imagem estática. “No digital, se nada se move na cena, ela parece uma fotografia”, explica. Isso cria um contraste chocante quando um movimento mínimo acontece. O digital permite que a imagem “viva” de uma forma que a película, com seu grão orgânico e constante movimento, não permitiria. É, essencialmente, a tentativa de dar vida a uma página de quadrinhos.
IA e o futuro da criação: o silêncio como resposta
Quando questionado sobre o elefante na sala — a ascensão da inteligência artificial generativa na indústria do entretenimento —, a resposta de Miyake é refrescante em sua simplicidade: “Eu não penso sobre isso”.
Enquanto Hollywood entra em pânico com a automação e o desemprego criativo, Miyake parece imperturbável. Sua arte não vem de algoritmos de otimização, mas da observação humana, da caminhada pelo bairro, do silêncio de uma mesa de escrita e da curiosidade existencial sobre o porquê de estarmos vivos. Para um diretor que encontra significado na poeira suspensa no ar, a IA é apenas um ruído que não tem lugar em seu processo criativo.
Sho Miyake nos lembra que, embora a tecnologia avance, a pergunta fundamental permanece a mesma: por que fazemos o que fazemos? Se a resposta for para conectar, para observar e para entender a nossa própria desajeitada existência, então ainda há esperança para o cinema. E, se depender de diretores como ele, o futuro da sétima arte continuará sendo, acima de tudo, humano.





