Se você acompanha o mercado automotivo com a mesma intensidade que a gente acompanha o lançamento de uma nova GPU ou o desenrolar de uma treta na indústria de games, sabe que o cenário atual das montadoras tradicionais é um verdadeiro soulslike: difícil, punitivo e cheio de armadilhas. A Ford, que tentou dar um “speedrun” na eletrificação contratando os maiores nomes do Vale do Silício, acaba de sofrer uma baixa que pode mudar o rumo da história da companhia. Doug Field, o arquiteto por trás da tentativa da Ford de se tornar uma gigante de software e EVs, está de saída. E, honestamente? Isso cheira a um “game over” estratégico para o plano original da montadora.
Sumário
- O fim de uma era: Doug Field deixa a Ford
- A realidade bate à porta: O “great EV pullback”
- Quem assume o controle e o que muda?
- O legado de Field: Entre o sucesso e o corte de custos
- O futuro da Ford e a aposta nos híbridos
Pontos-chave
- Doug Field, ex-Tesla e Apple, deixará a Ford no próximo mês após cinco anos liderando a divisão de EVs e software.
- A saída ocorre em meio a uma reestruturação drástica, com a Ford cancelando modelos elétricos (como o F-150 Lightning 🛒 de nova geração) e focando em híbridos.
- Alan Clarke, ex-Tesla, assume um novo papel focado em projetos avançados, mantendo a liderança da plataforma UEV.
- A Ford busca uma “organização de ponta a ponta” para integrar software e hardware após prejuízos bilionários na divisão elétrica.
- A empresa planeja renovar 80% do seu portfólio na América do Norte até 2029, priorizando novas arquiteturas elétricas e serviços digitais.
O fim de uma era: Doug Field deixa a Ford
Quando Doug Field trocou a Apple — onde comandava o projeto ultrassecreto de carros da maçã — pela Ford, o mercado viu isso como um movimento de mestre. Field não era apenas um executivo; ele era o homem que ajudou a colocar o Tesla Model 3 🛒 na estrada. Era o perfil “tech” que uma gigante centenária como a Ford precisava desesperadamente para não virar uma relíquia do passado. Cinco anos depois, ele está “passando o bastão”.
Field diz que é o momento certo, que o produto atingiu a maturidade e que agora é hora de deixar a turma da manufatura assumir. Soa bonito, né? Mas, no mundo corporativo, quando o capitão pula do barco exatamente quando a rota muda de “eletrificação total” para “vamos voltar aos híbridos porque elétrico não está dando lucro”, a gente sabe que a história é um pouco mais complexa. Ele sai sem um destino definido, o que só aumenta as especulações sobre o cansaço de tentar transformar um transatlântico em uma lancha rápida.
A realidade bate à porta: O “great EV pullback”
Não dá para falar da saída de Field sem mencionar o elefante na sala: a Ford está em pleno recuo. Se há dois anos o discurso era “o futuro é puramente elétrico”, hoje o clima é de contenção de danos. A empresa anunciou um writedown (baixa contábil) de impressionantes US$ 19,5 bilhões em seus investimentos em elétricos. Projetos ambiciosos, como a picape de próxima geração codinome T3 e vans comerciais elétricas, foram simplesmente deletados do cronograma.
A estratégia agora é o que chamamos de “sobrevivência pragmática”. A Ford vai focar no que dá dinheiro hoje: seus caminhões e SUVs a combustão e, claro, os híbridos. É uma admissão de derrota? Talvez não uma derrota total, mas certamente um “reset” nas expectativas. O mercado consumidor não adotou os EVs com a velocidade que os analistas previram, e as montadoras tradicionais, com suas estruturas de custo pesadas, estão pagando a conta dessa discrepância.
Quem assume o controle e o que muda?
A Ford não vai deixar o barco à deriva. Alan Clarke, outro veterano da Tesla, assume um papel crucial como vice-presidente de projetos de desenvolvimento avançado. Ele é o cara que está comandando a plataforma Universal Electric Vehicle (UEV). O objetivo? Criar uma família de elétricos de baixo custo, começando por uma picape média de US$ 30 mil prevista para 2027.
Além disso, a empresa está criando uma nova estrutura organizacional chamada “Product Creation and Integration”, sob o comando do COO Kumar Galhotra. A ideia é parar de tratar software e hardware como silos separados. A Ford quer que o software seja o “sistema operacional” do carro, integrando tudo de ponta a ponta. É a tentativa de finalmente alcançar o que a Tesla faz desde 2012: um carro que melhora com o tempo via atualizações OTA (Over-the-Air).
O legado de Field: Entre o sucesso e o corte de custos
Seria injusto dizer que a era Field foi um fracasso. Pelo contrário, ele entregou o BlueCruise, um dos sistemas de assistência ao motorista mais elogiados do mercado, e o Ford Digital Experience, que finalmente resolveu o pesadelo que eram as centrais multimídia da marca. Ele trouxe uma mentalidade de Vale do Silício para dentro de Detroit.
Por outro lado, houve erros de cálculo caros. A arquitetura elétrica de última geração, a FNV4, foi descartada por ser cara demais e complexa demais para ser implementada em escala. A Ford optou por uma versão “Frankenstein” (FNV3.X), uma adaptação da arquitetura anterior. Isso mostra o conflito eterno entre a ambição tecnológica e a realidade financeira. Manter a qualidade e a inovação enquanto se tenta reduzir custos é o “final boss” de qualquer montadora hoje.
O futuro da Ford e a aposta nos híbridos
O CEO Jim Farley tem uma missão hercúlea: renovar 80% do portfólio norte-americano até 2029. Isso inclui novas arquiteturas elétricas, automação avançada e uma experiência de usuário que não pareça ter sido desenhada nos anos 90. A meta é que, até o fim da década, 90% dos veículos Ford tenham arquiteturas elétricas totalmente novas, com sistemas zonais modernos.
A grande questão para nós, entusiastas e consumidores, é: será que a Ford vai conseguir equilibrar essa transição? O mercado de games nos ensinou que lançar algo “pela metade” resulta em reviews negativos e queda nas vendas. A Ford está tentando evitar que seus carros se tornem “produtos legados” antes mesmo de saírem da fábrica. A aposta nos híbridos é o “modo fácil” para ganhar tempo, enquanto eles tentam consertar o motor (e o software) do carro em movimento.
Doug Field sai, mas o desafio permanece. A Ford deixou de ser uma empresa de carros para tentar ser uma empresa de tecnologia que fabrica carros. E, como qualquer desenvolvedor sabe, o código legado é a coisa mais difícil de se lidar. Se eles vão conseguir escalar essa nova plataforma UEV e entregar um carro elétrico acessível e tecnologicamente relevante, só o tempo dirá. Por enquanto, ficamos na torcida para que a marca não perca sua essência no processo de tentar ser a nova Tesla.
E você, acha que a saída de Field é um sinal de que a Ford está desistindo da inovação ou apenas um ajuste necessário para sobreviver ao inverno dos elétricos? Deixe sua opinião nos comentários, porque a discussão no setor automotivo está mais quente do que bateria de smartphone rodando benchmark em dia de verão.





