O estúdio mais excêntrico do Xbox está imparável

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Sumário:

Pontos-chave

  • A Double Fine, sob a tutela da Microsoft, provou que a sua criatividade excêntrica permanece intacta e em plena forma.
  • Kiln é um brawler multiplayer 4v4 que mistura estratégia, combate caótico e um sistema único de criação de personagens.
  • O jogo utiliza a cerâmica como mecânica central, onde o formato do seu “vaso” dita suas habilidades e atributos.
  • Com partidas rápidas e acessíveis, o título se posiciona como uma lufada de ar fresco em um mercado saturado de jogos como serviço complexos.

O Renascimento da Double Fine: De Lighthouses a Vasos

Houve um período, logo após a aquisição da Double Fine pela Microsoft em 2019, em que muitos de nós — fãs fervorosos da mente brilhante de Tim Schafer — ficamos com o pé atrás. Seria a gigante de Redmond capaz de preservar a alma caótica e profundamente autoral de estúdios como este? O silêncio que se seguiu, quebrado apenas pelo aguardado Psychonauts 2 🛒, gerou burburinhos de que a “magia” poderia estar se perdendo sob a burocracia corporativa.

Bem, se você estava preocupado, pode descansar. A Double Fine não apenas sobreviveu; ela está vivendo uma fase criativa que faria qualquer estúdio independente morrer de inveja. No ano passado, fomos agraciados com Keeper, uma experiência introspectiva e estranha sobre um farol senciente. Agora, o estúdio dobra a aposta com Kiln, um jogo de briga multiplayer que coloca você no controle de espíritos habitando vasos de cerâmica. Sim, você leu corretamente. E, honestamente? Só a Double Fine para transformar algo tão mundano quanto a olaria em uma das experiências mais viciantes do ano.

Kiln: A Arte do Caos Cerâmico

À primeira vista, Kiln parece simples: um jogo 4v4 onde o objetivo é coletar água pelo mapa e despejá-la no forno (o kiln, daí o nome) da equipe adversária. Quem apagar o fogo do inimigo primeiro, vence. É uma estrutura que remete aos MOBAs, como League of Legends, mas sem a carga horária de um emprego de meio período. Esqueça o gerenciamento de minions, o farming de experiência ou as builds complexas de itens. Aqui, o foco é o caos puro e a diversão imediata.

Mas é na execução que a Double Fine mostra por que é única. O mundo de Kiln é habitado por pequenos espíritos que funcionam como caranguejos-eremitas: eles precisam de um recipiente para interagir com o mundo. Esses recipientes são, literalmente, vasos de cerâmica. E, como qualquer pessoa que já assistiu a um filme de artes plásticas sabe, o formato do vaso altera completamente a sua funcionalidade.

Mecânicas de Jogo: Moldando o Seu Destino

O que realmente separa Kiln de outros brawlers é o seu sistema de criação. Antes de entrar na arena, você usa um torno de oleiro virtual para esculpir suas próprias peças. É uma mecânica tátil e surpreendentemente satisfatória — usar os analógicos para moldar a argila traz uma conexão pessoal com o seu personagem que raramente vemos em jogos de ação.

Cada vaso que você molda atua como uma “classe”. Vasos largos e robustos aguentam muita pancada, mas são lentos e carregam pouca água. Já as garrafas finas e frágeis são perfeitas para ataques rápidos e furtivos, mas qualquer toque mais forte pode estilhaçá-las. Você pode levar três vasos para cada partida, alternando entre eles ao renascer. Isso cria uma camada estratégica fascinante: você precisa equilibrar a defesa do seu forno com a agressividade necessária para sabotar o inimigo. É um jogo de “pedra, papel e tesoura” feito de barro e espírito.

Além disso, os mapas são verdadeiros campos de minas criativos. Temos pistas com barcos giratórios, esteiras rolantes com caixas explosivas e, a minha favorita, uma pista de dança disco que obriga os jogadores a entrarem em um estado de “dança forçada” se estiverem no lugar errado na hora errada. É essa bizarrice, esse toque de humor de desenho animado de sábado de manhã, que torna o jogo impossível de largar.

Comparações Justas: Splatoon e a Magia do Simples

Se você busca uma referência para entender o impacto de Kiln, olhe para Splatoon. Assim como a Nintendo fez com os shooters, a Double Fine pegou um gênero que costuma ser hostil e elitista — o multiplayer competitivo — e o transformou em algo acessível, colorido e genuinamente divertido. Você não precisa de um chat de voz estressante ou de um microgerenciamento tático para se divertir com seus amigos. A comunicação flui naturalmente através da observação e da cooperação intuitiva.

As partidas são rápidas, intensas e não te dão tempo para respirar. Morreu? Você volta em segundos. A sensação é a de uma partida frenética de basquete, onde o ataque e a defesa se misturam em um turbilhão de estilhaços de cerâmica e água. É o tipo de jogo que você abre para uma partida rápida e, quando percebe, já se passaram três horas.

O Veredito do Culpa do Lag

Nem tudo são flores. Kiln, em seu estado atual, possui apenas um modo de jogo principal. Embora a jogabilidade seja sólida, existe o risco real de o conteúdo se tornar repetitivo a longo prazo. Vivemos em uma era onde os jogadores exigem atualizações constantes e novos conteúdos, e a Double Fine precisará ter cuidado para não deixar que essa joia perca o brilho por falta de variedade.

No entanto, se você está cansado de jogos de tiro hiper-realistas ou de RPGs que exigem que você estude um manual antes de começar, Kiln é o remédio perfeito. É um lembrete de que a Double Fine continua sendo o estúdio mais “estranho” — no melhor sentido possível — dentro da família Xbox. Eles não tentam seguir tendências; eles criam as suas próprias, mesmo que isso signifique fazer um jogo sobre potes de cerâmica.

Se você tem um PS5, Xbox ou PC, dê uma chance a Kiln. É uma experiência curta, concisa e cheia de personalidade. E, no fim das contas, quem não gostaria de passar uma tarde espalhando água e quebrando vasos em nome da vitória? A Double Fine provou mais uma vez que, contanto que haja criatividade, não importa o tamanho do orçamento: o resultado será sempre uma obra de arte.

Kiln já está disponível para PS5, Xbox e PC. Prepare o seu barro e nos vemos na arena!