Bem-vindos a mais uma edição do nosso mergulho semanal no que há de mais instigante na cultura pop. Aqui no Culpa do Lag, a gente não vive só de framerates e lançamentos de GPUs; a gente vive de arte, de som e de tudo aquilo que desafia o senso comum. E hoje, vamos falar de algo que é, essencialmente, o equivalente musical a um jogo indie experimental que você não consegue parar de jogar, mesmo sem entender exatamente por que ele te fisgou.
Pontos-chave
- Room for the Moon, de Kate NV, é uma obra-prima do pop experimental que desafia convenções.
- O álbum mistura influências do pop russo e japonês dos anos 70 e 80 com uma estética lúdica de filmes infantis.
- A sonoridade é descrita como um “conto de fadas em ritmo de Talking Heads 🛒“, unindo sintetizadores progressivos e percussões inusitadas.
- Apesar da estranheza quase “queasy” (que dá um frio na barriga), o álbum transmite uma sensação inegável de esperança e fantasia.
- É a trilha sonora perfeita para quem busca algo fora da curva, longe das fórmulas prontas do streaming.
O Lado B da Lua: Por que Kate NV é necessária
Sabe aqueles dias em que você está saturado de algoritmos? Aquela sensação de que toda playlist de “Descobertas da Semana” soa como uma versão requentada da música anterior? Pois é, eu também. Recentemente, com o burburinho constante sobre exploração espacial e a nossa eterna fixação pelo satélite natural da Terra, senti que precisava de algo que fugisse do óbvio. Nada de trilhas sonoras orquestrais ou álbuns conceituais de rock progressivo que já ouvimos à exaustão.
Foi aí que me lembrei de Room for the Moon, da artista russa Kate Shilonosova, mais conhecida como Kate NV. Lançado em 2020, este disco não é apenas um álbum; é um manifesto de liberdade criativa. Enquanto a indústria tenta enquadrar tudo em nichos apertados — “isso é synth-pop”, “isso é lo-fi” —, Kate NV chega e dá um belo de um “dedo do meio” para qualquer tentativa de classificação. Ela pega as referências, coloca num liquidificador e serve algo que parece, ao mesmo tempo, estranhamente familiar e completamente alienígena.
A estética do caos: Quando o pop decide quebrar as regras
O que torna Room for the Moon tão fascinante? A resposta reside na sua coragem em ser “esquisito”. Kate NV não tem medo de usar melodias que parecem estar tropeçando nos próprios pés. Se você estivesse jogando um título de plataforma onde a física é propositalmente quebrada, a trilha sonora seria exatamente esta.
Influenciada fortemente pelo pop japonês e russo das décadas de 70 e 80 — uma era de ouro da experimentação eletrônica — e pela estética lúdica de filmes infantis, a artista cria um universo que é, essencialmente, um conto de fadas distorcido. Imagine o Talking Heads em um dia de sol, mas com um sintetizador que decidiu, por conta própria, mudar de tom no meio de um solo. É assim que o disco soa. É uma dança assimétrica, um groove que te faz querer balançar a cabeça, mas que te deixa levemente desconfortável, como se houvesse algo escondido nas sombras da mixagem.
Análise de texturas: O que ouvimos em Room for the Moon?
Vamos falar de “Not Not Not”, a faixa de abertura. Ela é, honestamente, quase boba. As melodias dançam umas sobre as outras, desorientando o ouvinte, como se o software de áudio estivesse rodando em um PC com overclock extremo e prestes a travar. Ela avança aos trancos, com um gingado que lembra um pneu furado — e eu digo isso como o maior dos elogios.
Logo depois, somos jogados em “Da Na”, uma peça instrumental que desafia a lógica. O clarinete entra e sai de cena, soando como se estivesse bêbado, enquanto percussões que podem ser sementes de kenari ou apenas alguém passando os dedos em um pente (vai saber!) criam uma textura que é impossível de decifrar. É esse tipo de detalhe, essa camada de “o que diabos estou ouvindo?”, que mantém o ouvinte preso. Não há repetição entediante, apenas uma exploração constante de timbres.
A dualidade do fantástico
Em “Sayonara (Full Moon Version)”, ela abraça o lado teatral da new wave, entregando algo que parece a trilha sonora de um sonho lúcido, o contraponto perfeito para o pesadelo frenético de bandas como Oingo Boingo. E mesmo quando o álbum tenta ser “normal”, como em “Plans” — que é a faixa que mais se aproxima de um pop dançante oitentista —, Kate NV insere um solo de saxofone bleante e quase atonal que dura um minuto inteiro. É a prova de que ela não quer que você apenas ouça; ela quer que você questione.
Por que você precisa ouvir (mesmo sem entender o idioma)
Aqui entra o pulo do gato. A maior parte das letras está em russo. Eu não falo russo, e aposto que boa parte de vocês também não. Mas isso importa? Absolutamente não. A voz de Kate NV funciona como mais um instrumento na mixagem, transmitindo uma emoção que transcende a semântica. Apesar de toda a estranheza, do desconforto quase “queasy” das melodias, o álbum é profundamente esperançoso.
Não é uma daquelas trilhas sonoras sombrias para dias chuvosos. Room for the Moon é como os sonhos de uma mente inocente — cheios de cores vibrantes, situações absurdas e aquela sensação de que, apesar de tudo ser um pouco caótico, no final, tudo vai ficar bem. É um disco que celebra o “estranho” sem nunca se tornar cínico.
Se você está cansado da mesmice, se o seu Spotify está te entregando sempre a mesma coisa, faça um favor a si mesmo: dê uma chance para Kate NV. Disponível no Bandcamp e em todas as plataformas de streaming (Qobuz, Deezer, Apple Music, Spotify), este álbum é a prova de que a música, assim como os melhores jogos, não precisa seguir as regras para ser uma obra de arte inesquecível. Às vezes, o brilho está justamente na falha, no ruído e na vontade de ser diferente.
E agora, se me dão licença, vou colocar “Not Not Not” para tocar no volume máximo enquanto tento entender por que aquele clarinete soa tão bem quando desafina. Até a próxima!





