Chega de IA: por que seu artigo não precisa de ilustrações artificiais

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A inteligência artificial não é apenas uma ferramenta; ela se tornou o elefante na sala de todas as redações, estúdios de design e mesas de bar onde a cultura geek é discutida. Recentemente, a prestigiada The New Yorker decidiu colocar esse elefante em destaque ao ilustrar um perfil de Sam Altman, o “pai” do ChatGPT, com uma arte gerada por IA. O resultado? Um pesadelo visual que levanta mais perguntas do que respostas. Aqui na Culpa do Lag, nós não passamos pano: é hora de dissecar por que usar IA para ilustrar artigos sobre IA é, no mínimo, uma oportunidade desperdiçada.

Sumário

Pontos-chave: O que você precisa saber

  • A The New Yorker utilizou uma imagem gerada por IA para ilustrar um perfil sobre Sam Altman, CEO da OpenAI.
  • O artista, David Szauder, utiliza um processo híbrido (IA combinada com edição manual e curadoria ética), diferenciando-se dos geradores de “slop” (lixo digital) comuns.
  • A crítica central não é sobre a competência técnica, mas sobre a mensagem contraditória: usar a ferramenta que ameaça a profissão para ilustrar um artigo sobre o homem que a popularizou.
  • A ausência de “intencionalidade humana” em IAs puras torna o resultado final um espelho vazio, carente da alma que um ilustrador humano imprime em seu trabalho.

O Vale da Estranheza: Quando a IA encontra o jornalismo

Se você abrir o perfil de Sam Altman na The New Yorker, a primeira coisa que vai te atingir é um “jump scare”. Altman aparece com seu suéter azul habitual, mas sua cabeça é cercada por um enxame de rostos desencarnados — versões distorcidas, raivosas e agonizantes dele mesmo. É bizarro. É perturbador. E, claro, traz o selo de aviso: “Visual por David Szauder; Gerado usando I.A.”

O problema aqui não é a estética em si. Szauder é um artista multimídia respeitado, alguém que trabalha com colagens e processos digitais há mais de uma década. Ele não é um “prompt engineer” de fim de semana que joga palavras aleatórias no Midjourney e reza para o algoritmo acertar. Contudo, ao usar essa tecnologia para retratar o “arquiteto” da própria IA, a revista cria uma metalinguagem que acaba se tornando um tiro no pé. A imagem tenta comunicar que Altman é uma figura multifacetada e talvez pouco confiável, mas acaba apenas replicando aquela “gosma” visual característica de IAs, que, sejamos sinceros, já estamos todos exaustos de ver.

Mais do que um prompt: Onde a técnica encontra o algoritmo

É injusto colocar Szauder no mesmo saco que os geradores de imagens de baixa qualidade que infestam o LinkedIn. Conversando com ele, descobrimos que o processo envolveu esboços, ajustes manuais no Photoshop e o uso de dados de treinamento curados — uma tentativa de manter a ética em um campo minado. Ele mesmo afirma: “Acredito que, mesmo na era da IA, uma imagem deve primeiro ser formada na mente humana, não na máquina”.

Isso é louvável? Certamente. É o tipo de trabalho que exige esforço. Mas, como jornalista, me pergunto: se o processo foi tão manual e tão focado na curadoria humana, por que insistir na IA? A resposta parece estar no fetiche tecnológico. As publicações parecem desesperadas para mostrar que estão “antenadas” com o futuro, mesmo que isso signifique adotar uma ferramenta que, em última análise, desvaloriza o trabalho de milhares de ilustradores talentosos que poderiam ter entregue algo com mais identidade e menos “cheiro de processador queimado”.

A Falácia da Criatividade: Por que a IA ainda é “sem alma”

O ponto nevrálgico aqui é a intencionalidade. Quando um artista como Kadir Nelson ou Christoph Niemann desenha para a The New Yorker, cada traço, cada escolha de cor e cada composição é uma decisão consciente baseada em uma vida inteira de repertório. A IA não tem repertório; ela tem padrões estatísticos. Ela é como alguém descrevendo um sonho surrealista: é fascinante por um minuto, mas logo você percebe que não há um “eu” ali por trás da narrativa.

A IA é incapaz de parodiar a si mesma com a sutileza que um ser humano consegue. Ela não entende o peso político de Altman ou o medo que a indústria tem da automação. Ela apenas vomita uma representação visual baseada em milhões de imagens que ela “leu”. O resultado, por mais bem polido que seja, carece daquela faísca de humanidade que faz a gente parar para olhar uma capa de revista e pensar: “Uau, isso diz algo profundo”.

O Futuro: Estamos cavando nossa própria cova?

Aqui na Culpa do Lag, temos uma política estrita: se usamos IA, avisamos com um rótulo amarelo, grande e claro. Não temos medo da tecnologia, mas temos horror à substituição do pensamento crítico pela conveniência algorítmica. O mercado de ilustração editorial já é um campo de batalha cruel, com taxas baixas e exploração constante. Quando uma publicação do porte da The New Yorker normaliza o uso de IA, ela dá sinal verde para que editores menores — que não têm o orçamento ou o escrúpulo de Szauder — comecem a substituir ilustradores humanos por prompts baratos.

A imagem do “Altman-Hidra” não é apenas uma ilustração. É um sintoma de um sistema que está, lentamente, sendo “ensloppificado” (um termo que adoramos usar para descrever a transformação da internet em uma massa cinzenta de conteúdo gerado por bots). Não precisamos que a arte sobre IA seja feita por IA. Precisamos que artistas humanos usem sua visão para criticar, zombar e desconstruir esse futuro tecnológico que está sendo empurrado goela abaixo.

Em resumo: o artigo sobre Altman não precisava de arte gerada por IA. Ele precisava de um artista humano que tivesse a coragem de olhar para o CEO da OpenAI e traduzir, com pincel ou caneta digital, o que ele realmente representa para o nosso futuro. A IA pode até conseguir desenhar rostos, mas ela nunca vai conseguir desenhar a alma — e, neste momento, é exatamente de alma que o jornalismo e a arte mais precisam.