O horror digital e a obsessão humana: Por que “Red Rooms” é o thriller que você não consegue ignorar
Raramente o cinema acerta o tom quando decide explorar as entranhas da tecnologia. Na maioria das vezes, o que vemos nas telas é uma caricatura: telas verdes com códigos que correm rápido demais, a onipresente e mal explicada “dark web” servindo como um passe de mágica para resolver roteiros preguiçosos, ou hackers que digitam freneticamente em teclados sem mouse. No entanto, Red Rooms (Les Chambres Rouges), do diretor Pascal Plante, rompe essa maldição com uma precisão cirúrgica que incomoda tanto quanto fascina.
O filme não utiliza a tecnologia como um artifício de conveniência, mas como o próprio tecido que sustenta o horror. Ao longo de quase duas horas de projeção, somos conduzidos por uma espiral de obsessão que utiliza elementos contemporâneos — do Poker 🛒 online ao Bitcoin 🛒 — para construir uma tensão que, estranhamente, parece palpável e real. Não se trata de uma obra sobre máquinas, mas sobre o que os seres humanos são capazes de fazer quando o anonimato digital encontra o desejo doentio pela infâmia.
A construção do desconforto: Atuações que definem o tom
O coração pulsante de Red Rooms reside na performance magnética e enigmática de Juliette Gariépy, que interpreta Kelly-Anne. Ela é uma modelo, hacker e jogadora profissional de poker, uma combinação de habilidades que a torna uma figura quase alienígena em meio ao circo midiático que cerca o julgamento do serial killer Ludovic Chevalier. A escolha de Plante pelo slow-burn — o ritmo lento que cozinha o espectador em fogo baixo — é o que torna o filme tão eficaz.
O contraste entre o ruído e o silêncio
Enquanto Kelly-Anne mantém uma fachada de frieza calculada, o filme nos apresenta Clementine (Laurie Babin), uma jovem que atua como o contraponto perfeito. Clementine é a personificação do fanatismo digital: ela grita, defende a inocência de Chevalier com um fervor quase religioso e se faz presente em todas as câmeras de TV. Ela é o ruído, a histeria das redes sociais que busca sentido em monstros.
A dinâmica entre essas duas personagens levanta questões cruciais sobre a natureza da nossa própria curiosidade:
- Até que ponto a nossa obsessão por crimes reais (o fenômeno do true crime) nos torna cúmplices?
- Como o isolamento das bolhas digitais distorce a percepção da realidade e do luto?
- Por que nos sentimos atraídos por figuras que representam o que há de mais sombrio na psique humana?
Além do crime: Uma crítica à era da informação
Embora o ponto de partida seja o julgamento de um assassino em série acusado de tortura e transmissão de filmes “snuff”, o filme de Pascal Plante evita o caminho fácil do sensacionalismo gráfico. O horror aqui não é o que vemos, mas o que imaginamos. A habilidade de Plante em manipular o espectador para que ele preencha as lacunas com seus próprios medos é o que coloca Red Rooms em um patamar superior.
É impossível não traçar paralelos com obras como Garota Exemplar, de David Fincher. Ambos os filmes compartilham essa atmosfera de “sujeira” moral, onde a mídia e a opinião pública são personagens tão importantes quanto os protagonistas. No entanto, Red Rooms vai um passo além ao inserir o poker online e a criptoeconomia como ferramentas de poder. A cena em que o clímax se desenrola através de transações digitais e apostas de alto risco é um dos momentos mais tensos e tecnicamente inteligentes do cinema recente.
Por que este filme é um divisor de águas
O que torna esta produção uma experiência obrigatória — e, sejamos honestos, profundamente perturbadora — é a recusa do diretor em oferecer respostas fáceis. Kelly-Anne não é uma protagonista convencional com a qual podemos nos identificar. Ela é uma incógnita. Até os créditos finais, você se verá questionando as motivações por trás de cada clique, cada aposta e cada decisão dela. Será ela uma justiceira, uma voyeur, ou algo ainda mais sinistro?
O filme habita um espaço desconfortável onde a linha entre a vítima, o perpetrador e o observador se torna borrada. Ao terminar a sessão, o espectador não se sente aliviado. Pelo contrário, sente-se compelido a olhar para as próprias telas, para o próprio comportamento online e para a forma como consumimos a dor alheia como se fosse entretenimento.
Red Rooms é, acima de tudo, um espelho. Um espelho frio, moderno e impiedoso, que nos mostra que, na era da hiperconectividade, os monstros não vivem apenas em porões escuros; eles vivem nos algoritmos que alimentamos todos os dias.
Para quem busca um thriller que não subestime a inteligência do público e que ouse explorar os cantos mais sombrios da internet, esta obra é uma adição essencial ao catálogo de qualquer cinéfilo. Atualmente disponível em plataformas como AMC+ e Shudder, o longa de Plante reafirma que o verdadeiro terror é aquele que não precisa de sustos baratos para nos manter acordados à noite.





